por Tadeu Kaçula.
Pouco mais de um século após a assinatura da Lei Áurea, o Brasil ainda convive com uma contradição estrutural: a população negra, que compõe o maior grupo étnico-social do país, continua afastada dos espaços reais de poder político e econômico. Embora negros e negras sejam maioria da população brasileira, sua presença nos parlamentos, nos governos e nas instâncias decisórias segue limitada, simbólica e frequentemente condicionada aos interesses das elites tradicionais.
Essa exclusão não aconteceu por acaso. O fim formal da escravidão nunca foi acompanhado de um projeto nacional de reparação, inclusão ou democratização do acesso à terra, à educação, à renda e à representação política. A liberdade concedida em 1888 veio desacompanhada de dignidade material. Enquanto os antigos escravizados eram abandonados à própria sorte, as oligarquias econômicas e políticas consolidavam estruturas institucionais destinadas a preservar privilégios e impedir a ascensão autônoma das classes populares.
Desde então, a população negra brasileira resistiu de inúmeras formas. Foram movimentos sociais, organizações comunitárias, sindicatos, coletivos culturais, associações de bairro, lideranças religiosas e intelectuais comprometidos com a luta por direitos. Houve também tentativas permanentes de ocupar os espaços da política institucional, disputar eleições e influenciar os rumos da nação. No entanto, a máquina política tradicional sempre operou como um filtro de exclusão.
Os partidos existentes, em sua maioria, utilizam a pauta racial como discurso eleitoral, mas raramente colocam a população negra no centro estratégico de seus projetos de poder. A presença de candidatos negros costuma servir como elemento de diversidade simbólica, enquanto as decisões fundamentais permanecem concentradas nas mãos de grupos historicamente privilegiados. O resultado é uma democracia formalmente ampla, mas socialmente restrita.
Diante desse cenário, cresce o debate sobre a necessidade de autonomia política das populações pobres, periféricas e desassistidas. A construção de um partido popular negro não significaria exclusão de outros grupos sociais, mas sim a criação de uma ferramenta política organizada a partir das experiências concretas da maioria da população brasileira. Seria um projeto comprometido com justiça racial, combate à desigualdade, distribuição de renda, valorização da cultura popular, fortalecimento das periferias e democratização do Estado.
A ideia de um partido de referência negra provoca desconforto em setores acostumados a monopolizar o poder. Muitos argumentam que isso poderia “dividir o país” ou “racializar a política”. Mas a realidade brasileira já é profundamente marcada por desigualdades raciais. O que existe hoje não é ausência de racialização, mas sim uma estrutura racial historicamente favorável às elites brancas.
A pergunta central talvez não seja se o Brasil está preparado para um partido popular gerido por negro, mas se a democracia brasileira está disposta a amadurecer ao reconhecer essa realidade esteutural. Afinal, nenhuma democracia pode ser considerada plena quando a maioria da população permanece sub-representada e socialmente marginalizada.
Um partido político popular gerido por negros teria potencial para mudar o paradigma eleitoral brasileiro ao reorganizar prioridades e ampliar a participação política das bases populares. Poderia incentivar novas lideranças comunitárias, fortalecer a consciência política coletiva e construir programas voltados às necessidades reais das periferias urbanas e das populações historicamente negligenciadas pelo Estado.
Além disso, uma organização política com autonomia popular poderia romper com a lógica da dependência eleitoral que transforma comunidades inteiras em massa de manobra a cada eleição. Em vez de campanhas baseadas apenas em promessas temporárias, seria possível construir um projeto político permanente, conectado às demandas do cotidiano: transporte público, moradia, segurança, educação, saúde, emprego e combate à violência estatal, entre outros.
Naturalmente, um projeto dessa magnitude enfrentaria enormes desafios. O sistema político brasileiro é caro, burocrático e profundamente influenciado pelo poder econômico. A criminalização de movimentos populares, a concentração dos meios de comunicação e a resistência das elites tradicionais também representam obstáculos significativos.
Mesmo assim, a história demonstra que avanços sociais nunca foram concedidos espontaneamente. Direitos são conquistados por organização, consciência coletiva e participação política ativa. Foi assim com o movimento operário, com as mulheres, com os povos indígenas e com a população negra em diversas partes do mundo.
O Brasil vive um momento de intensa crise de representação política. Cresce o descrédito nas instituições e aumenta a sensação de abandono entre as classes populares. Nesse contexto, a construção de novas formas de organização política pode representar não apenas uma alternativa eleitoral, mas também uma renovação democrática.
Um partido popular gerido por negro não seria apenas uma legenda. Poderia se tornar um instrumento de afirmação histórica, participação cidadã e transformação estrutural. Afinal, quando a maioria social do país passa a ocupar os espaços de decisão com autonomia, toda a democracia se fortalece.
A verdadeira questão é: até quando o Brasil aceitará uma democracia em que a maioria permanece distante do poder?